O espanto
Meus
males eu canto
E
quando me dizem que quem canta seus males espanta
Eu
rio
Eu
me inundo
Profundamente
Entre
meus calos
Entre
meus cales
E
meus males
Quando
bate um frio e junto vem a garoa
Sento
no meio fio e tento ficar numa boa
Eu
tô longe de casa, mas perto do amor
Esse
mapa é desconexo e me perco nessa dor
Peço
um martelinho de cachaça
Para
regular a minha lenta
Faço
versos na esquina
E
a vida vem e me aguenta
Quando
bate àquele frio
Você
vem e me esquenta
Quando
bate àquele frio
Você
vem e me esquenta
A minha chuva
Existe
uma chuva de toda uma vida que me abraça a todo o momento
Às
vezes, um tormento n’outras uma tormenta
Às
vezes, me assenta n’outras deixa um vento
Chega
de repente como fosse lágrima
Chega
de repente com quem só quer lavar a alma e a escada
Vem
disfarçada quando beija o mar
E
de vez parece café só para me despertar
Quantas
vezes de tão braba leva tudo
E mostra
que ao mesmo tempo que leva ensina o deixar
Quantas
vezes por compaixão deixa nada
E mostra
que o tudo mora no coração e no tentar
Às
vezes, tem como casa um lenço
N’outras
do lenço faz uma vela que ilumina e navega
Às
vezes, escondida atrás de um céu fechado somente brada
N’outras
vem encantada acompanhada de um arco-íris
N’outras
vem sozinha e não conta se vem tarde ou cedo
A
chuva é meu segredo que eu conto quando tenho medo
Lições
do frio
A
esse outono com cobertor curto
Sem
preparação para o inverno que chegará intenso
Deixa
o corpo exposto, cansado e mudo
Ensaia
uma febre e traz o medo
Ao
passar do tempo aprendi a coser cobertores
Linhas
finas, emoções verdadeiras e amores
No
inverno nos abraçamos mais
E
nesse encontro tão perto nasce a nossa paz
Tantos
frios que entraram por baixo da porta
E
nos ensinaram que juntos o frio pouco importa
Se
o coração tem luz e está aquecido
Assim,
o cobertor tem como nome, o ser querido
Aparências
Mora
um silêncio nas palavras que grito
Um
medo escondido numa coragem que treme
Um
olhar perdido na verdade que minto
Uma
certeza numa nau sem leme
O
que aparece desaparece no próximo passo
Não
existe coração que não sofre nem coração de aço
Aparências
são jogos de canetinhas que usamos
Numa
tela branca que desde de cedo sonhamos
A procura
Dores que se espalham
pelo meu corpo semimorto
Um torto caminho que
não me leva para lugar nenhum
Como se eu fosse
apenas uma voz perdida sem achados
Numa viagem sem
mapa, sem bússola, sem porto
Cores esquecidas
numa aquarela em preto e branco
Um atalho
despercebido que acena em noite escura
Como se eu mesmo não
quisesse encontrar a procura
Uma cortina
esquecida num palco sem nenhum canto
De repente um sol
desses que iluminam em meio aos cobertores
Aparece quase a
dizer que a vida encantadoramente ressurge
Braços fortes do
tempo abraçam até o que havia partido
Primaveras que
passavam caladas deixam as sonhadas flores
A procura agora não
é mais fardo nem esperanças esquecidas
É uma cortina aberta
que mostra que tudo passa e volta colorido
Assim com amor
resgatamos sentimentos e tantas vidas
Pois a vida de vez
em quando é um livro que precisa ser relido
Crônicas de um mundo bem contemporâneo
Ensaiou uma crônica
deixou um bilhete
pediu gim
implorou uma tônica
ensaiou a bula
escondeu a receita
Quirina é louca
mas, aproveita
o sol acorda
a lua deita
a vida é simples
e se ajeita
És meu sol
Nesses tempos sem paz
Aguaceiros de agostos
Janeiros de inundações
Meu coração feito ilha
Naufrágios e temporais
Assim perdido busco achados
Meus olhos não alcançam o que vejo
Mantenho as portas fechadas
Contento-me com frestas
Não confio em bússolas e mapas
Meu silêncio sonha com teu beijo
Ele lê muito Florbela
E Florbela é deliciosamente louca
Ela se atira da janela
E tem certeza que a altura é pouca
Difícil entender ele
Muito mais entender ela
Poucos conhecem a Florbela
Quase ninguém me conhece
Faço poesia porque ela me alimenta
A palavra desde guri me “atenta”
As águas que eu prazerosamente navego
São sinceras, as vezes sem sentido, não nego
Rasgos
Rasgos são tão precisos
Rasgos são tão intensos
Rasgos cortam por fora
Rasgos cortam por dentro
Rasgos a fazer a peça do tecido
Rasgos são livros não lidos
Rasgos são colchas de retalhos
Rasgos são cobertores adormecidos
Incêndios
06.01.2025
Campeche
Minhas
meninas cansadas
Por
pouco dormir
Cantigas
de rodas
Minhas
olheiras profundas
Por
pouco dormir
Lembranças
acessas
Meus
olhares tão longe
Por
pouco dormir
Sonhos
despertos
Meus
incêndios
Por
pouco dormir
A
clarear minh’alma
Breve
canção do que me conforta
Campeche,
3 de janeiro de 2025
Meus incêndios disfarçam meus terrenos
áridos
Cantorias na madrugada me despertam
Nem sei se sou noite todo dia
Ou se meus dias escurecem sem avisos
Aquém do que me arde moram centelhas
em minh’alma
Mantenho meus medos, meus desesperos e
minha calma
Assim sigo aos pedaços tão inteiro
Breve
canção do que me conforta II
Campeche,
3 de janeiro de 2025
Meus desconfortos são agostos a beirar
trinta graus
São tintas e tantas cores a desenhar
invernos
Calafrios e queimações no mesmo
drinque
Assim como vender a roupa nova no “brique”
Assim como calar a fala num único
grito
Mantenho meus segredos, meus calos e
minha esperança
Assim sigo a guardar lembranças
Breve
canção do que me conforta III
Campeche,
3 de janeiro de 2025
Minhas despedidas são breves hiatos em
frases soltas
Cartas a mão leves escritas em
momentos únicos
Destinatários que escondem o CEP
Que não querem ser encontrados e de
repente aparecem
O que sei de mim muitas vezes nem me
interessa
Mantenho minhas fugas, minhas rugas e
meus sentimentos
Assim quando vem a calmaria eu me
encho de vento
Canção das Idas
Andarilho
Andaria
inteiro caso minhas metades fossem entendidas
Por que além
de minha vida existem tantas outras vidas
Algumas páginas
eu passo, mas viajo além das lidas
Gosto de ser
chegada, mas sou apaixonado por idas
Andaria em
pedaços caso meu corpo inteiro fosse entendido
Por que além
de minha vida existem livros que não foram lidos
Algumas
chegadas eu passo, mas outras idas eu sinto
Gosto de ser
página em branco, mas em outras quero o escrito