sexta-feira, 29 de agosto de 2014

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Nem mesmo o mar poderá te dizer por onde andei naufragando.

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Enfim, fica tatuado um beijo no teu coração, pra te sentires beijada sempre...

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Lembrança é a ferrugem pelo arame da saudade...

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Agora meu mundo estava mais próximo, não sei “próximo do que nem de onde”, mas, com certeza, estava mais próximo de algum lugar. Lugar é um grande pássaro que adora viajar, em bandos, em bares, em mares...

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Acordei ontem ao lado de três reticências...

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Não me venhas falar de falta de espaço, no mesmo momento em que olhas para o céu...

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Quem inventou o frio não te conhecia...

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O que o mar tem pra contar, ele canta.


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O olhar mexe com o corpo, arrepia a alma, aquece o mais do que o tanto...
A cor do tato desenha o corpo, redescobre a alma, expõe o mais do que o tanto...
A boca umedece o corpo, acalenta a alma, deseja o mais do que o tanto...
O amor é a refeição do olhar, do corpo, da alma e do mais do que o tanto...

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A alma tem em sua face um luar... claridade,quase uma febre, que nos acende por dentro... o amor tem alma, muito mais do que corpo, o amor é querer estar junto mesmo na distância, o amor sempre aquece nosso rosto, feito um sopro

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O coração explode... um arrepio grita teu nome... a esquina foi tatuada com minha sede.... e tua ausência me dá fome

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Intensamente foi a forma que descobri para desenhar palavras
Os interruptores d’alma são toques que aceleram o sentimento
Toda essa energia vale se puder mover o coração
O resto é vento...

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Tudo pode ser uma questão de dizer nada.

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Já virei a página sem ter entendido o livro. (Meu amigo, amor não é adivinhação)...







Quirina e Dolores

(Duas mulheres que acompanharam e acompanham minhas poesias e, que agora eu conto um pouquinho sobre elas)

Amores

Quirina escuta o andar de Dolores.
Quirina inquieta escuta o andar de Dolores.
Quirina boquiaberta escuta uma frase de Dolores.
- João deixou recado, Quirina?
Quirina, com a face rosada e, com um beijo marcado no pescoço, responde.
- Que João? Ah, o João... Esteve aqui. Muito rápido... e deixou um recado...
Mas tinha que ser no teu pescoço, Quirina?

(Tomaram café juntas anos depois, e riram muito, por muitos anos...)

Hiato

Aquele sujeito, cheio dos adjetivos,
dizendo-se objeto direto, é bem composto,
de simples não tem nada,
Aumenta tudo a cada relato.
Ontem, o vi num bar, bebendo e rodeado de hiatos...

(Quirina leu tudo atentamente, e para definir rapidamente o acontecido, disse: é um problema de língua... e riu muito do que disse...
- Tá falando do beijo? – gritou Dolores enquanto fazia as unhas...)



Afinal de contas I

Afinal de contas, teus números não batem e eu conto até dez.
Dez passos, dez dias, dez recados.
Noves fora, agora é quase tudo...
(Quirina, deixa de fazer número).

Afinal de contas II

Resultado: vou embora.
Noves fora... nada.
No vaso: onze e meia.
No relógio: flor da pele.
Como a gente faz número.
E tudo é uma questão de fração.
Se até hoje buscam o valor do x, porque cabe a mim, de repente, a solução?
Resultado: pode ser que eu fique.
Noves fora... tudo.
No vaso: um despertar
No relógio: uma semente
Como a gente faz número.
E tudo é uma questão de soma.
Se até hoje a hipotenusa é confusa porque cabe a mim, de repente, a solução?

(Dolores faz as contas, refaz, e grita alucinada: - Caíram “dois”...).

Como a gente faz número.



Álibi

Uma dose de vodca,
misturada com pólvora,
disfarçada com cânfora.

Uma dose de paixão,
misturada com dúvida,
disfarçada com púrpura.

(- Sem gelo, grita Dolores...).

A tristeza

Tristeza não se esconde debaixo do tapete.
Tapete fala.
Tapete grita.
Tapete absorve.
Aspirador de pó não pode ser a felicidade...
Tristeza tem que ser vivida, degustada, entendida.
(Dolores, aflita, diz: - Tô precisando de uma faxina...).




Intuição

Tua blusa vermelha tem um quê de amarelo.
Atenção. Nosso amor é verde...
Eu sou verão... e ainda não sei tua estação...

(- Cuidado com o trem, grita Dolores.).

A intrigante briga entre a chuva forte e o chão seco
                     
Tem dias que a gente nem sabe o que quer.
E querer nada, pode ser querer demais.
E querer tudo pode ser não querer.
É como um chão seco apaixonado pela chuva forte,
ter medo que ela possa ser forte demais.
(O amor, com certeza, é assim).


- Deixa chover, grita Dolores, já encharcada.
Um silêncio que grita

Qual meu norte, Dolores, qual meu norte?
Dolores diz ... “Minha bússola toma café comigo e já não faz mais sentido”.

Sopa de letrinhas
                    
Ah... tem dias que todos os dias são dias “D”,
e nem sempre na hora “H” colocam os pingos nos “IS”.
Todo mundo corre atrás do “X” da questão.
Outros buscam o ponto “G”.
Ah... troca-se uma letra e muda-se tudo.
Troca-se uma letra e muda-se o mundo.
Mala, sala, cala, fala, rala, bala...
Ah... Queria a receita,
queria a letra,
queria o mapa,
queria a dica,
queria ao menos uma pista.

Ah... Quirina lê tudo com atenção, como sempre faz, enche a colher e comenta:
- É sopa, mas não é sopa este mundo.

(Vai entender os riscos e os sabores dessa vida...).


Todo o tempo do mundo num só instante de dor

O tempo cura tudo, Quirina ?
Depende o tempo, responde Quirina, olhando pra uma manhã linda e clara.
O que cura mesmo é uma tempestade bem forte.
Só assim nascem manhãs iguais a esta.
Ah, Quirina... tens tempo... tens tempo...

Interiores

Dolores foi à farmácia para comprar tranquilidade.
Tomou comprimidos bem fortes para ver todas as cores.
(Quirina, indignada, num só grito resume:
Que adianta pintar a fachada, sem colorir os interiores?).

Das interpretações

Quirina comprou um sonho num domingo de sol e de creme...
E tudo parecia suficientemente completo...


Crônicas de um mundo bem contemporâneo           

Ensaiou uma crônica
deixou um bilhete
pediu gim
implorou uma tônica
ensaiou a bula
escondeu a receita
Quirina é louca
mas aproveita
o sol acorda
a lua deita
a vida é simples
e se ajeita

Pequena canção de um céu da boca estrelada depois de um dia de sol

Abriu a carta, a janela e uma garrafa de vinho branco seco.
Abriu o coração, a caixa de fotos e até a flor do vaso abriu.
(Quirina que passava por ali, abriu um longo sorriso e a noite em que se encontraram ainda não terminou...).




quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Luas inteiras dormem 
entre nossos lençóis 
estrelas nas cobertas
sereno amor
amor estelar


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Estio
Lá no meio do deserto mora uma única gota d’água...
Filha de uma chuva rara e de um poeta sereno.
É lá que os sonhadores matam a sede.
A tecelã

Tem uma fada na noite
Que tece mantas para os dias frios
Cachecóis de linhas tênues
Boas casas, qualificados fios
Bordados de amor latente
Frisos finos e corações enormes
Beijos de mares, namoros de rios
Enquanto depois de tanto trabalho
A fada sonha e desperta a cor do tanto
Os sonhos da fada colorem
Todos os sonhos que dormem
Num mágico e doce encanto
Que nossos corpos tais encantadas conchas
A cozer as tais apaixonadas linhas
Eternizem almas, cochilem de conchinhas
Aquecidas pelo amor, eterno manto

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Um conto de sarda

Uma menina com sarda
Brincava atrás da cortina
Desenhava uma fada
A solitária menina

Queria que a fada
Num toque de sua varinha
Retirasse do seu rosto a sarda
E ela detrás da cortina

A fada não entendendo nada
E achando tão bela a menina
Num toque doce de fada
Desapareceu com a cortina...





Fomes                                                                                                 

Era inevitável a queda
frente ao vazio que se fazia
era café sem bolacha, sem fatia
era fome o que o coração mostrava e dizia

Era inevitável o pranto
frente ao exposto
era lição sem cartilha
era um mar imenso sem nenhuma possível ilha

Era inevitável o fim
frente ao penúltimo capítulo que se escrevia
era final feliz sem nenhum par
era romance sem nenhuma poesia

A fome comia...









Desejo

Se não posso sentir
mais do que tu me permites
ainda assim sigo sentindo
tudo aquilo que não sentes
e, quando feres os meus olhos
com teus limites,
correm em minhas veias
desejos repentes
Ao contrário do que vês,
não sou tão pura,
pois minha boca
solta uma mulher ardente
enquanto crês que me tens,
sou vã procura
embora aches que sou completa,
vejo-me doente...
Ao passo que vives encanto,
sou tortura
e, quando vivo em brasa,
és decente
O que faço por amor
chamo loucura
Talvez, por isso,
eu seja inocente...




Tarde

Lá fora é tarde
Aqui dentro na sala
A vida arde
Desenho a tela
Com mertiolate

Cicatrizes contam histórias
Esparadrapos vestem as feridas
Quando tudo parece morrer
Aparece teu sorriso

O destino assopra

Os riscos e os ciscos

Deve-se ter tino quando se decide correr riscos,
depois do vinho juras de amor são endereços comuns,
ainda preciso ver a poesia na rotina, na retina
para acreditar em beijo no coração a vida inteira...




Saudalejar

Seu nome saudade
Menina de seios rijos
Pouco ou nada de juízo
Cheiro de leite
Sabor de flor

Seu nome amor
Menino de dentes livres
Brancos que um dia eu tive
Cor de mar
Imensidão de grão

Seu nome paixão
Mulher de lábios fatais
Afã de talvez, clã de jamais
Música de cor

Verbo “saudalejar”
Eu rio muito contigo... Chego a ser mar...
Muito é pouco para dizer do tanto
Nem era preciso dizer
Será que é sério?
Faz 35 anos, meu amigo...
A nossa história, sabes bem pouco...
O que viste e o que foi contado faz parte
A vida é uma arte imprecisa
Rabiscos e aquarelas não lidas
Impulsos e pulsos sobre o querer
O que posso te dizer,
Que o meu amor é bem sério, sincero e compreensivo
A felicidade deveria ser partilhada quando se vê alguém feliz
Mas não é assim que acontece...
Essa história tem tanta cor, tanto amor
Que é até difícil explicar o tanto
Enfim, se o problema todo é saber da seriedade de tudo isso
Digo-lhe, amigo: antiguidade, parceria, sentimento, risos e encaixes
São apenas poucos capítulos dessa linda história...
um arrepio feito uma letra de Chico, um querer ardente como um soneto de Florbela, um arranjo de Paco de Lucia, um filme de Bergman, uma tela de Picasso, uma sinfonia de Beethoven... Que cante Cartola, Noel e Lupi... Que Quintana declame na sacada, que se desenhe os sonhos de Kurosawa... e esse arrepio que invade quando te beijo...