terça-feira, 29 de setembro de 2026

 

Saudade                                                I

Toda hora de sinto, pressinto tua presença

Tomo café contigo, bebo caipirinha também

Escuto ao teu lado o jogo do Colorado

Numa partida de dominó

Muitas vezes vem na garganta um nó

Eras uma peça rara, meu querido pai

A saudade não vai

Fica aqui tatuada

Tomada feito àquele gole de maracujá

A vida por ti continua cantante

Sei que passeias no céu com o Possante

Os cabeças de porcas te mandam lembranças

Continuam as mesmas crianças de sempre

Toma meu beijo

Toma aquela Polar gelada

“Preteou o olho da gateada”

E assim vamos levando a vida

Nesse louco pula-pula

A notícia é boa, acho que dará Lula

Beijo em teu coração

E teu nome levo orgulhoso comigo

 

 

 

 

Meus medos em dias de chuva         

 

Por fora

Encharcados

Boquiabertos

Incertos

Desertos

Por dentro

Secos

 

No varal do tempo

Segredos

Entediados

Dobrados feito cartas antigas

Rosas ressequidas dentro de livros

Ampulhetas com areias endurecidas

 

Por fora

Um vendaval

Por dentro

Também

 

 

O espanto                                 

Meus males eu canto

E quando me dizem que quem canta seus males espanta

Eu rio

Eu me inundo

Profundamente

Entre meus calos

Entre meus cales

E meus males

 Provocações                              

Provocações intencionadas é também meu objetivo quando escrevo

Tirar e colocar frases isso que eu quero quando me leem.

 

Eu canto, se vão declamar, se vão fazer canção, se vão rabiscar em cima são agrados que gosto. Ler é fugir também do que es

 

Achados e perdidos

 

Tanto tempo eu não via

Os meus olhos tão perdidos

Que quando olhei no espelho

Meu olhar havia sumido

 

Olhei para o lado

Não reconheci onde estava

Meus olhos quase parados

A buscar o que eu já tinha achado

 

Esconderijos

 

Essas linhas que eu não escrevo, mas são redigidas pelo coração

Vez por outra escrevem n’alma linhas que cosem um cobertor de aflição

Tem coisas que a gente nem sente, sem querer varremos para debaixo do tapete

Como se isso fosse resolver

 

 

Quando bate um frio e junto vem a garoa

Sento no meio fio e tento ficar numa boa

Eu tô longe de casa, mas perto do amor

Esse mapa é desconexo e me perco nessa dor

Peço um martelinho de cachaça

Para regular a minha lenta

Faço versos na esquina

E a vida vem e me aguenta

 

Quando bate àquele frio

Você vem e me esquenta

Quando bate àquele frio

Você vem e me esquenta

 

A minha chuva

 

Existe uma chuva de toda uma vida que me abraça a todo o momento

Às vezes, um tormento n’outras uma tormenta

Às vezes, me assenta n’outras deixa um vento

Chega de repente como fosse lágrima

Chega de repente com quem só quer lavar a alma e a escada

Vem disfarçada quando beija o mar

E de vez parece café só para me despertar

Quantas vezes de tão braba leva tudo

E mostra que ao mesmo tempo que leva ensina o deixar

Quantas vezes por compaixão deixa nada

E mostra que o tudo mora no coração e no tentar

Às vezes, tem como casa um lenço

N’outras do lenço faz uma vela que ilumina e navega

Às vezes, escondida atrás de um céu fechado somente brada

N’outras vem encantada acompanhada de um arco-íris

N’outras vem sozinha e não conta se vem tarde ou cedo

A chuva é meu segredo que eu conto quando tenho medo

 

Lições do frio

A esse outono com cobertor curto

Sem preparação para o inverno que chegará intenso

Deixa o corpo exposto, cansado e mudo

Ensaia uma febre e traz o medo

 

Ao passar do tempo aprendi a coser cobertores

Linhas finas, emoções verdadeiras e amores

No inverno nos abraçamos mais

E nesse encontro tão perto nasce a nossa paz

 

Tantos frios que entraram por baixo da porta

E nos ensinaram que juntos o frio pouco importa

Se o coração tem luz e está aquecido

Assim, o cobertor tem como nome, o ser querido

 Aparências

Mora um silêncio nas palavras que grito

Um medo escondido numa coragem que treme

Um olhar perdido na verdade que minto

Uma certeza numa nau sem leme

 

O que aparece desaparece no próximo passo

Não existe coração que não sofre nem coração de aço

Aparências são jogos de canetinhas que usamos

Numa tela branca que desde de cedo sonhamos

 

 

A procura

 

Dores que se espalham pelo meu corpo semimorto

Um torto caminho que não me leva para lugar nenhum

Como se eu fosse apenas uma voz perdida sem achados

Numa viagem sem mapa, sem bússola, sem porto

 

Cores esquecidas numa aquarela em preto e branco

Um atalho despercebido que acena em noite escura

Como se eu mesmo não quisesse encontrar a procura

Uma cortina esquecida num palco sem nenhum canto

 

De repente um sol desses que iluminam em meio aos cobertores

Aparece quase a dizer que a vida encantadoramente ressurge

Braços fortes do tempo abraçam até o que havia partido

Primaveras que passavam caladas deixam as sonhadas flores

 

A procura agora não é mais fardo nem esperanças esquecidas

É uma cortina aberta que mostra que tudo passa e volta colorido

Assim com amor resgatamos sentimentos e tantas vidas

Pois a vida de vez em quando é um livro que precisa ser relido

 

 

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

Quirina

 Crônicas de um mundo bem contemporâneo           


Ensaiou uma crônica

deixou um bilhete

pediu gim

implorou uma tônica

ensaiou a bula

escondeu a receita

Quirina é louca

mas, aproveita

o sol acorda

a lua deita

a vida é simples

e se ajeita

sábado, 25 de janeiro de 2025

Morada

 

És meu sol

Nesses tempos sem paz

Aguaceiros de agostos

Janeiros de inundações

Meu coração feito ilha

Naufrágios e temporais

 

Assim perdido busco achados

Meus olhos não alcançam o que vejo

Mantenho as portas fechadas

Contento-me com frestas

Não confio em bússolas e mapas

Meu silêncio sonha com teu beijo

sábado, 18 de janeiro de 2025

Essa tal Florbela

 


 

Ele lê muito Florbela

E Florbela é deliciosamente louca

Ela se atira da janela

E tem certeza que a altura é pouca

Difícil entender ele

Muito mais entender ela

 

Poucos conhecem a Florbela

Quase ninguém me conhece

Faço poesia porque ela me alimenta

A palavra desde guri me “atenta”

As águas que eu prazerosamente navego

São sinceras, as vezes sem sentido, não nego

 

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

Rasgos

Rasgos

 

Rasgos são tão precisos

Rasgos são tão intensos

Rasgos cortam por fora

Rasgos cortam por dentro

 

Rasgos a fazer a peça do tecido

Rasgos são livros não lidos

Rasgos são colchas de retalhos

Rasgos são cobertores adormecidos

 

Incêndios

 

Incêndios                                                         06.01.2025 Campeche

 

Minhas meninas cansadas

Por pouco dormir

Cantigas de rodas

 

Minhas olheiras profundas

Por pouco dormir

Lembranças acessas

 

Meus olhares tão longe

Por pouco dormir

Sonhos despertos

 

Meus incêndios

Por pouco dormir

A clarear minh’alma

Breve canção do que me conforta - I - II - III

 

Breve canção do que me conforta              

Campeche, 3 de janeiro de 2025

 

Meus incêndios disfarçam meus terrenos áridos

Cantorias na madrugada me despertam

Nem sei se sou noite todo dia

Ou se meus dias escurecem sem avisos

Aquém do que me arde moram centelhas em minh’alma

Mantenho meus medos, meus desesperos e minha calma

Assim sigo aos pedaços tão inteiro

 

 

Breve canção do que me conforta II          

Campeche, 3 de janeiro de 2025

 

Meus desconfortos são agostos a beirar trinta graus

São tintas e tantas cores a desenhar invernos

Calafrios e queimações no mesmo drinque

Assim como vender a roupa nova no “brique”

Assim como calar a fala num único grito

Mantenho meus segredos, meus calos e minha esperança

Assim sigo a guardar lembranças

 

 

Breve canção do que me conforta III        

Campeche, 3 de janeiro de 2025

 

Minhas despedidas são breves hiatos em frases soltas

Cartas a mão leves escritas em momentos únicos

Destinatários que escondem o CEP

Que não querem ser encontrados e de repente aparecem

O que sei de mim muitas vezes nem me interessa

Mantenho minhas fugas, minhas rugas e meus sentimentos

Assim quando vem a calmaria eu me encho de vento

 

 

 

 

terça-feira, 12 de setembro de 2023

 A solidão dói 

A falta grita
A fatia falta
O grito cala
Sem mar, eu não rio

Falta areia na ampulheta
O tempo passa
Sem eu ver

A solidão vira rotina 
E a tristeza é companhia
Desatenção sem querer

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2023

 Um segredo de gaveta e de mar


Dentro de minhas gavetas, 

onde guardo meus sorrisos, 

mora um punhado de conchas.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

 


Canção das Idas



Em algum lugar eu fiquei
Sem saber eu parti
Desgovernei sem querer
Por quais motivos eu nem sei
Só sei que aprendi

Num dia a gente se vai
N´outro chora para voltar
São fases que a gente passa
Tem noites que a lua vem
N´outras ela quer descansar

Trago tristezas e lições
Enveredei entre labirintos
Mas aqui dentro eu sinto
Que apesar dos perdidos
Nos achados eu sobrevivi